Paula Machado, ex-coordenadora do Turismo de Macau e agora representante da DOC DMC Macau em Portugal, traz consigo uma vasta experiência de duas décadas que moldaram a sua visão sobre o turismo e a cultura deste destino. Em entrevista, a responsável explica como a sua experiência e paixão por Macau influenciam as novas funções que assumiu recentemente na DOC DMC, uma empresa que se destaca por operar em português e pela sua abordagem personalizada na promoção de destinos.
Como é que a sua experiência de 20 anos em Macau moldou a sua visão sobre o turismo e a cultura deste destino?
Macau, a minha segunda casa, como gosto de dizer, moldou-me profundamente pois vivi intensamente cada fase da sua transformação. Cheguei com 17 anos, uma adolescente cheia de sonhos, para concluir o liceu, já que os meus pais, ambos professores, foram trabalhar para lá.
Embora tenha vindo para Portugal estudar Direito, acabei por terminar o curso em Macau. Durante os estudos, comecei a trabalhar e assim que me formei, integrei os serviços de economia na área de contencioso administrativo, o que me abriu portas para uma série de experiências no setor público, incluindo o Gabinete de Apoio ao Ensino Superior, onde tive a oportunidade de participar na criação da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, hoje uma referência na região. Mais tarde, passei pelo Gabinete do Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura.
Mas foi em 2002, que encontrei a minha verdadeira paixão: o Turismo. Fui convidada pelo então Diretor da Direção dos Serviços de Turismo de Macau, Eng. Costa Antunes, para integrar o gabinete de apoio à direção como assessora jurídica, função que desempenhei até 2010.
Após casar e ser mãe, mudei-me para o Rio de Janeiro, dedicando-me à maternidade a tempo inteiro. Quando voltei a Portugal, retomei a colaboração com a Direção dos Serviços de Turismo de Macau até 2017. Nesse ano, fui destacada para o Centro de Promoção e Informação Turística de Macau em Portugal, e em 2018, fui nomeada coordenadora até 2021.
A minha paixão por Macau vai além do profissional. Acompanhei a transição da administração portuguesa para a chinesa, testemunhando a coexistência harmoniosa entre culturas. Cresci com a cidade, vi-a expandir-se e desenvolver-se sem perder a sua alma. Trabalhar em diversos setores permitiu-me entender as dinâmicas e desafios de Macau. A fusão única entre Oriente e Ocidente, a sua história e a calorosa hospitalidade das pessoas fazem de Macau um destino especial.
Claro que toda esta experiência moldou a minha visão sobre turismo e a cultura deste destino. Viver e trabalhar em Macau permitiu-me compreender que o turismo vai muito além dos números; é uma ponte que liga pessoas, culturas e histórias. A convivência com as gentes de Macau ensinou-me a importância de preservar a sua autenticidade, valorizar o património e respeitar as diferentes comunidades locais, que convivem pacificamente. Macau é um exemplo de como o turismo pode ser um motor de desenvolvimento económico e social, sem comprometer a sua identidade cultural.
“A fusão única entre Oriente e Ocidente, a sua história e a calorosa hospitalidade das pessoas fazem de Macau um destino especial”
O que a levou a escolher a DOC DMC como o seu novo projeto? O que torna esta empresa única em Macau e Hong Kong?

Em primeiro lugar importa referir que a minha empresa, SusTravel, com escritórios em Macau e Portugal, oferece uma gama diversificada de serviços, incluindo a formação, consultoria em sustentabilidade e promoção turística, onde os serviços de representação são uma parte essencial desta oferta.
A DOC DMC, nesse contexto, é tanto uma parceira quanto uma cliente, que só vem fortalecer, por um lado, a posição da minha empresa no mercado, como, por outro lado, as sinergias que podemos criar com esta colaboração mútua.
Esta parceria foi estabelecida durante a minha recente estadia em Macau, onde, em resposta às exigências do mercado e aos objetivos de desenvolvimento económico da região — nomeadamente o aumento do fluxo de visitantes internacionais, com especial foco na Europa e nos países de língua portuguesa —, percebi que a minha profunda experiência no destino, combinada com o conhecimento dos mercados português e espanhol, me posiciona de forma única no setor.
Foi com essa base sólida que a parceria com a DOC DMC surgiu naturalmente. A DOC DMC é uma empresa de referência em Turismo de Negócios e Eventos em Macau e Hong Kong, com 16 anos de experiência. O que a torna única, especialmente sendo a única que opera em português, é a sua equipa jovem e dinâmica, que tem feito um trabalho extraordinário no atendimento a grupos internacionais.
Identifiquei-me imediatamente com a cultura da empresa, que valoriza o acompanhamento profissional e eficiente dos clientes, algo que considero crucial para promover eficazmente um destino. Além disso, trabalhar com uma equipa local de confiança e que domina três línguas, é fundamental para garantir o sucesso de cada projeto, e a DOC DMC oferece exatamente isso.
Portanto, a decisão de representar a DOC DMC está em linha com o meu objetivo de ligar os mercados lusófonos com um destino tão singular como Macau, garantindo que, além de uma promoção eficiente, os clientes recebam um acompanhamento de excelência. E, por outro lado, Macau e Hong Kong são destinos que se complementam.
Enquanto Macau oferece uma rica experiência cultural, histórica e gastronómica, Hong Kong, além de ser um território impressionante, complementa a oferta limitada de praias em Macau. Embora Macau tenha Coloane, conhecido como o ‘pulmão verde’ do território, é em Hong Kong que os visitantes podem desfrutar de uma maior diversidade de praias e de um leque mais amplo de experiências ao ar livre.
Esta complementaridade é particularmente atrativa para os turistas portugueses e espanhóis, que tradicionalmente apreciam praias e o contato com a natureza.
“a decisão de representar a DOC DMC está em linha com o meu objetivo de ligar os mercados lusófonos com um destino tão singular como Macau, garantindo que, além de uma promoção eficiente, os clientes recebam um acompanhamento de excelência”
Tendo em conta a importância de oferecer experiências autênticas e soluções criativas, pode dar exemplos de como a DOC DMC personaliza as viagens para os clientes?
A DOC DMC, começa sempre por mergulhar nas necessidades e desejos dos clientes. Realiza um levantamento detalhado dos interesses, expectativas e preferências de cada cliente para criar um itinerário verdadeiramente personalizado. Sendo uma empresa portuguesa, consegue minimizar as barreiras culturais e oferecer uma experiência mais autêntica.
Cada grupo é tratado de forma única, ajustando-se às suas necessidades, interesses e orçamento. Oferece experiências imersivas, únicas e exclusivas. Imagine um foodie tour guiado por uma aplicação exclusiva, uma visita à cidade acompanhada por um historiador ou arquitecto, ou até mesmo uma noite no “casino do vinho”. E que tal tocar tambores no topo da Torre de Macau com o SkyDrumming, ou desfrutar de um cruzeiro privado com catering no porto de Macau? Para os mais aventureiros, têm corridas de barco-dragão.


A gastronomia é um dos pontos fortes. A cozinha macaense, uma fusão deliciosa da culinária portuguesa e chinesa, com influências das rotas marítimas portuguesas por África, Goa e Malásia, é uma das primeiras cozinhas de fusão do mundo. E é, em parte, portuguesa! Destaco um jantar exclusivo numa private kitchen com um chefe macaense, proporcionando uma experiência gastronómica inesquecível.
“Na DOC DMC Cada grupo é tratado de forma única, ajustando-se às suas necessidades, interesses e orçamento. Oferece experiências imersivas, únicas e exclusivas”
Quais são as novidades em Macau que gostaria de destacar? Como essas novidades podem atrair mais visitantes?
Macau tem evoluído de forma impressionante nos últimos anos, mesmo com os desafios da pandemia. Podemos destacar as novidades em várias áreas: acessos, gastronomia, oferta hoteleira, atrações e atividades. Além disso, Hengqin, conhecida em português como Ilha da Montanha, está em grande desenvolvimento e também oferece novas oportunidades de lazer e entretenimento.
Estas novidades têm um enorme potencial para atrair mais Portugueses a Macau, oferecendo uma combinação irresistível de acessibilidade, diversidade e experiências únicas.
No que diz respeito às acessibilidades, o acesso a partir do aeroporto de Hong Kong está muito mais eficiente graças à ponte Hong Kong-Macau, com 55 km de extensão, que liga diretamente o aeroporto a Macau. Agora, é possível organizar transferes privados 24 horas por dia, reduzindo o tempo de viagem para metade. Além disso, a quarta ponte Macau-Taipa, chamada “Ponte Macau”, será inaugurada ainda este mês de outubro, facilitando ainda mais a circulação dentro de Macau.
Recentemente, foi inaugurada uma rota que liga Lisboa a Macau, via Coreia do Sul, três vezes por semana. Esta nova rota facilita o acesso direto de Portugal a Macau, tornando a viagem mais conveniente para os turistas portugueses.
Quanto à gastronomia, Macau foi reconhecida pela UNESCO como Cidade Criativa da Gastronomia, o que destaca ainda mais a sua rica oferta culinária. Novos restaurantes de comida macaense, como a Casa Maquista, Portucau e Private Kitchen de Comida Macaense, estão a atrair muitos visitantes.
Sobre a oferta hoteleira, tenho a dizer que, desde o início da pandemia, a oferta hoteleira em Macau tem crescido significativamente. Destacamos o Lisboeta, o Grand Lisboa Palace (com designs de Karl Lagerfeld e Versace), o W Hotel, o Londoner (um resort integrado de 900 milhões de dólares), o Centro de Convenções do Galaxy, e os hotéis Andaz e Raffles.
Já quanto às atrações, destaco que os bairros antigos de Macau, como a Vila da Taipa, com dezenas de restaurantes num ambiente acolhedor, e o Bairro de São Lázaro, estão a ganhar nova vida. O Bairro de São Lázaro (dos meus preferidos) para além de toda a envolvência dos edificios históricos permite experimentar Portugal em Macau.
Foi feita uma grande aposta pela empresa gerida pelo Asai, um chinês de Hong-Kong, apaixonado por Portugal. Os clientes, maioritariamente da China e do sudeste asiático, ficam apaixonados e curiosos por Portugal. Tem a maior coleção de galos de barcelo, de discos vinil da Amália, é apaixonado por antiguidades, sobretudo da TAP, sendo que a maioria delas foram adquiridas na feira da ladra em Lisboa. O seu espirito criativo e dinâmico fez com que lhe fosse atribuída a concessão de uma das casa-museu da ilha da Taipa, onde abriu recentemente o restaurante Maquista, de gastronomia macaense. Um “Must Go” em Macau.
Entre as novas atrações, destacamos também o renovado Mercado Vermelho, os Estaleiros Navais de Coloane, o Museu do Grande Prémio e o cruzeiro Macau-Coloane. Já as novas atividades incluem o Water Park no Studio City (com áreas indoor e outdoor) e o Zipcity Macau, um dos maiores da Ásia.
Hengqin, ou Ilha da Montanha, é um destino emergente que não requer visto para estadias de até 144 horas (6 dias). Lá, os visitantes podem desfrutar do Parque de Atrações Ocean Kingdom, do Space Ship, do Centro de Medicina Tradicional Chinesa, e de novos hotéis mais económicos.
Por fim, Macau será a Cidade Cultural da Ásia Oriental em 2025, o que trará muitos eventos culturais e criativos à cidade, tornando-a ainda mais atrativa para os visitantes. Este título reflete o compromisso de Macau em promover a sua rica herança cultural e a diversidade das suas tradições. Além disso, reforça o interesse do governo em fortalecer os laços com os países lusófonos, um dos seus desígnios estratégicos.
A realização de eventos culturais e criativos não só atrairá visitantes de todo o mundo, mas também destacará Macau como um ponto de encontro entre o Oriente e o Ocidente, celebrando a sua identidade única e a sua história como uma ponte entre culturas. Esta iniciativa proporcionará uma plataforma para intercâmbios culturais e artísticos, beneficiando tanto os residentes como os turistas, e consolidando Macau como um destino cultural de excelência.
“Recentemente, foi inaugurada uma rota que liga Lisboa a Macau, via Coreia do Sul, três vezes por semana. Esta nova rota facilita o acesso direto de Portugal a Macau, tornando a viagem mais conveniente para os turistas portugueses”
Como planeia estabelecer uma ligação entre as agências de viagens em Portugal e as experiências oferecidas pela DOC DMC em Macau e Hong Kong?
Para estabelecer uma ligação sólida entre as agências de viagens em Portugal e as experiências oferecidas pela DOC DMC em Macau e Hong Kong, proponho um plano de ação abrangente e dinâmico. Primeiramente, realizarei visitas personalizadas às agências de viagens em Portugal, onde apresentarei as novidades, produtos e serviços da DOC DMC de forma envolvente. Além disso, pretendo organizar workshops e sessões de formação online para os agentes de viagens, fornecendo informações detalhadas e interativas sobre os destinos e roteiros.
Também pretendo produzir conteúdos atrativos para as redes sociais, como fotos, vídeos e artigos sobre os destinos, direcionados especificamente aos agentes de viagens. Para manter todos atualizados, enviarei e-mails periódicos com novidades, promoções e informações relevantes.
A chave para o sucesso é criar um relacionamento próximo e colaborativo com as agências de viagens portuguesas, especialmente aquelas que trabalham com grupos e incentivos. Oferecer recursos que facilitem a venda dos produtos da DOC DMC e promover os destinos de forma atrativa e eficaz são essenciais para fortalecer essa ligação.
Que tipo de eventos ou iniciativas está a planear para promover Macau e Hong Kong no mercado português? Alguma ação específica que já tenha em mente?
Entre as iniciativas, destaco a presença em feiras de turismo, roadshows, convenções de grupos de agências e outros eventos relevantes do setor.
Especificamente, vou estar presente no congresso da APAVT em Huelva, uma excelente oportunidade para rever todo o trade e fortalecer as minhas relações com os profissionais do setor. Em novembro, marcaremos presença na IBTM World em Barcelona, no stand do Instituto de Promoção do Investimento de Macau, juntamente com outras empresas e entidades de Macau, como as concessionárias do jogo e o Turismo de Macau.
“A chave para o sucesso é criar um relacionamento próximo e colaborativo com as agências de viagens portuguesas, especialmente aquelas que trabalham com grupos e incentivos. Oferecer recursos que facilitem a venda dos produtos da DOC DMC e promover os destinos de forma atrativa e eficaz são essenciais para fortalecer essa ligação”
Qual é a sua visão para o turismo em Macau e Hong Kong nos próximos anos, considerando o contexto atual e as oportunidades de crescimento?
Macau e Hong Kong, como parte da China, representam o futuro associado a uma potência mundial. São destinos a não perder de vista, com uma grande aposta nos mercados internacionais, especialmente os europeus e lusófonos como já referi.
Macau está a atravessar um período de mudança política. O atual Chefe do Executivo, que está no cargo desde 2019, não se recandidatou a um segundo mandato por motivos de saúde. O seu mandato termina a 19 de dezembro, e no dia seguinte, que marca o 25.º aniversário da constituição da RAEM, tomará posse o novo Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, ex-Presidente do Tribunal de Última Instância, que será o primeiro Chefe do Executivo a falar português.
Esta mudança política terá repercussões em Macau, especialmente na substituição de cargos, mas não afetará o plano de desenvolvimento económico para 2024-2028, cujo objetivo principal é diversificar a economia, tradicionalmente muito dependente da indústria do jogo.
A economia de Macau sofreu uma contração de 56,3% em 2020 e mais 26,2% em 2022, principalmente devido às restrições de viagens impostas pelo Interior. No entanto, acredito que o futuro do turismo em Macau e Hong Kong é promissor. Para isso, será necessário um trabalho conjunto de governos, empresas e comunidades locais para enfrentar os desafios e aproveitar as oportunidades.
A diversificação da oferta turística é essencial. Macau e Hong Kong devem continuar a expandir as suas atrações, investindo em cultura, gastronomia e eventos internacionais. A promoção da sustentabilidade também é crucial, garantindo que o crescimento do turismo não compromete o meio ambiente e a qualidade de vida dos residentes. Além disso, a inovação tecnológica pode transformar a experiência dos visitantes, desde a simplificação dos processos de viagem até a criação de novas formas de entretenimento e interação.
Em resumo, Macau e Hong Kong têm um futuro brilhante no turismo, mas o sucesso dependerá de uma abordagem estratégica e colaborativa para enfrentar os desafios e maximizar as oportunidades.
“Acredito que o futuro do turismo em Macau e Hong Kong é promissor. Para isso, será necessário um trabalho conjunto de governos, empresas e comunidades locais para enfrentar os desafios e aproveitar as oportunidades. A diversificação da oferta turística é essencial”





